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Crise no Estaleiro Atlântico Sul derruba desempenho da indústria de Pernambuco em julho

Especialistas ouvidos pelo Movimento Econômico citam ainda outros fatores que contribuíram para a performance negativa do Estado, que segue a tendência de desaceleração
Conforme publicou o site CBN Recife, a dificuldade de se descolar da crise no Brasil, a recessão na Argentina – principal destino das exportações do estado nordestino - e a quebra da indústria naval local, com o encerramento das atividades do Estaleiro Atlântico Sul (EAS), foram determinantes para a má performance do setor industrial de Pernambuco em julho passado. É o terceiro resultado negativo consecutivo da indústria estadual registrado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
De acordo com a Pesquisa Industrial Mensal Produção Física Regional (PIM-PF Regional) referente ao mês passado, divulgada nesta terça-feira (10/9) pelo IBGE, Pernambuco teve a segunda maior retração (-3,9%) na comparação na passagem entre junho e julho deste ano, entre os 15 locais pesquisados e apresentou uma desaceleração muito superior à do Brasil (0,3%). Ficou atrás apenas do Amazonas (-6,2%).  Na comparação julho de 2019/julho de 2018, a queda foi ainda maior: 10,2%. 
No acumulado de janeiro a julho deste ano frente ao mesmo período de 2010, o desempenho também foi negativo (-1,6%). A situação, no entanto, se reverte no indicador de junho de 2018 a julho de 2019 em relação aos 12 meses anteriores, com um percentual modesto de crescimento (0,8%), ainda assim um dado positivo, enquanto a produção no Brasil oscilou negativamente (-1,3%).
Um detalhe que chama a atenção é que o Nordeste de uma forma geral apresentou indicadores negativos nesta edição da pesquisa acima dos registrados pelo país no comparativo julho/junho. Pernambuco teve uma redução superior à da região (-2,6%), seguido por Ceará (-1,5%) e Bahia (-1,3). 
Do ponto de vista de segmentos, as maiores influências no Estado para a queda em junho frente ao mesmo mês de 2018 vieram de Outros Produtos Químicos (-4,25%), Outros Equipamentos de Transporte (-3,91%) e Produtos Alimentícios (-1,69%).
Entre os especialistas ouvidos pelo Movimento Econômico, prevalece a avaliação de que, numa visão geral, essas informações mostram que o Estado vem seguindo a tendência do país, de desaceleração industrial, já apontada na PIM-PF nacional mais recente, divulgada semana passada. Os economistas também destacam o impacto da crise argentina para Pernambuco. Afinal, o pais vizinho é um dos maiores parceiros comerciais do Brasil e tem forte influência sobre a economia local. Outro fator apontado é a suspensão da produção no EAS (uma das maiores empresas instaladas no mercado estadual) após a entrega, em junho, de sua última encomenda - um petroleiro Aframax para a Transpetro, braço logístico da Petrobras. Confira. 


Bernardo Almeida,analista da PIM-PF do IBGE
Foto: IBGE/Divulgação
Bernardo Almeida – Analista da PIM-PF/Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
“A indústria nacional teve uma queda de 0,3% na passagem de junho para julho e Pernambuco segue esse comportamento. O Estado atingiu 3,9% de queda e isso reflete muito a influência negativa do setor de Outros Produtos Químicos, que consiste na produção de tintas, vernizes e outros itens.  Em Pernambuco, há um forte destaque negativo desse setor no mês. Numa análise mais ampla, o Estado já está no terceiro resultado negativo seguido, com uma perda acumulada desde maio, de 8,3% na passagem mês a mês. 

Como nós estamos numa conjuntura de incertezas, ainda não há como especificar se essa tendência vai se manter para o ano todo. O que se demonstra é que o comportamento nacional se relaciona a uma cautela nas decisões de investimento por parte dos produtores, justamente porque o consumo das famílias também reflete uma cautela dos consumidores. E como as decisões de consumo caem, a oferta também cai. É um ciclo que acaba se firmando. O desemprego é outra causa, pois diminui a produção na indústria. E tem a crise no mercado argentino, que diminui o escoamento da nossa produção. Todos esses fatores ocasionam essa queda em nível nacional e que atinge Pernambuco.” (Ouça áudio)

Cezar Andrade, coordenador de Economia da Fiepe
Foto: Fiepe/Divulgação
Cezar Andrade  – Coordenador de Economia da Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (Fiepe)
“Avaliando o indicador de julho de 2019 comparado ao mesmo mês de 2018, atribuo a queda à crise na Argentina, já que o país era o principal destino das exportações de Pernambuco. Há o destaque do setor de Outros Produtos Químicos, que teve um recuo de 43,2% no comparativo julho/julho. A justificativa para isso pode ser a queda nas exportações de polímeros exatamente para a Argentina. Outro destaque é o segmento de Borrachas e Plásticos que, apesar de recentemente vir em crescimentos constantes, impulsionados pelo Polo Jeep, teve queda nas exportações. A retração nos embarques, puxada pela Argentina, foi de 11% nas borrachas e 23% nos plásticos e provocou um recuo de 9,3% na produção do setor. 

O setor têxtil se somou a esse quadro, com uma queda de 23% na produção. O problema aqui é, da mesma forma, o comércio exterior, com redução nas vendas não só para o mercado argentino, mas para todos os destinos. Já o setor de Outros Equipamentos de Transporte, que vem num cenário negativo há algum tempo, caiu 74,5% neste mês em relação a 2018. Um dos fatores que explica essa variação é o encerramento das atividades do EAS.” (Ouça áudio)

Rodolfo Guimarães, da Agência Condepe-Fidem
Foto: Kleyvson Santos/FP/Reprodução da internet
Rodolfo Guimarães- Diretor de Estudos e Pesquisas Socioeconômicas da Agência Condepe-Fidem/Secretaria Estadual de Planejamento e Gestão
“Um fator importante para a queda em Pernambuco é o EAS. Em julho, a produção física da empresa foi 17,7% da média mensal de sete anos atrás, ou seja, de 2012, quando o estaleiro foi incluído no cálculo da produção física do Estado. Na comparação com o mesmo mês de 2018, o EAS produziu 25,5%. É a maior queda entre todas as empresas do Estado no mês em análise. Quando se avaliam os dados de emprego é possível ter uma visão melhor do tamanho do problema. Em julho do ano passado, a indústria naval gerava no Estado 4.300 empregos no mercado local, de acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, o Caged. Esse número caiu para 550 postos de trabalho em julho de 2019. Em agosto, o EAS encerrou as operações e, de fato, o empreendimento foi um elemento impactante nessa taxa. No comparativo mensal julho de 2019/julho de 2018, com uma retração de 10,2% na produção estadual, o EAS contribuiu com 40% dessa taxa, enquanto todo o setor de Outros Produtos Químicos, afetado pela queda nas exportações, respondeu por 42%.

Então, basicamente, a retração da indústria local está concentrada numa empresa de grande peso na economia estadual e num segmento também importante da indústria pernambucana e bastante voltado para o comércio exterior. Esses fatores foram fundamentais para que Pernambuco tivesse um desempenho, em alguns indicadores da pesquisa, pior que o do Nordeste e o do país. Por outro lado, é preciso lembra que os dados do polo automotivo da Jeep e da Refinaria Abreu e Lima ainda não são incluídos na PIM-PF. São empresas de segmentos que vão bem e podem contribuir para amortecer o desempenho negativo de outros setores da indústria local.” 

Thobias Silva/Foto: divulgação
Thobias Silva – Economista na Mont Capital Asset
“O que se observa é que o mês de julho em comparação ao mês anterior foi ruim e frente ao mesmo mês do ano passado foi péssimo. O acumulado do ano também é muito ruim. No mês, Pernambuco ficou atrás em relação às outras economias importantes do Nordeste - como a Bahia e o Ceará.  No acumulado de 2019, apresenta uma queda menor que a Bahia, enquanto o Ceará teve crescimento de 2,9% de janeiro a julho. No entanto, quando se olha para 12 meses, o resultado é discretamente positivo em Pernambuco e negativo no Brasil. 

São sinais de que a economia está anêmica. Aquele processo de recuperação que se esperava no início do ano não se confirmou. A economia continua muito debilitada. A recuperação deve continuar muito lenta, apesar de alguns sinais positivos aqui e acolá, como a redução da taxa de desemprego, corte de juros e inflação sob controle. Quando se olha para a economia industrial e para a geração de emprego, tudo ainda está muito lento e em Pernambuco não é diferente. O ano vai ficar aquém do esperado. Agora é torcer para que, no ano que vem, haja alguma reação e que medidas do Governo Federal voltadas para o curto prazo ocorram, para estimular o emprego e o crédito, não só medidas estruturais de longo prazo.”