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Venezuela luta para vender petróleo após sanção dos EUA

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As exportações de petróleo da Venezuela estão caindo rapidamente. As novas sanções impostas pelos EUA estão colocando o setor petroleiro do país mais perto de um colapso e ameaçam provocar um impacto sobre os mercados globais maior do que o esperado por muitos especialistas, segundo fontes a par do assunto.

Os estoques de petróleo da Venezuela estão crescendo pois o regime do presidente Nicolás Maduro está tendo dificuldades para achar compradores para o seu petróleo, a única fonte real de recursos do seu governo. As restrições impostas pelos EUA, que visam redirecionar a receita obtida com o petróleo para o líder oposicionista Juan Guaidó, estão tornando difícil para regime de Maduro garantir o pagamento pelo petróleo.

A produção também está caindo por causa de problemas trabalhistas, que incluem o abandono em massa do emprego por trabalhadores que lutam para sobreviver à hiperinflação e aos salários atrasados, e também pela falta de derivados de petróleo importados, dos quais a Venezuela precisa para diluir seu petróleo pesado e bombeá-lo pelos oleodutos para os terminais de exportação, segundo as fontes.

Os navios petroleiros que transportam produtos ligados à Lukoil, da Rússia, Repsol, da Espanha, e à gigante americana Chevron foram retardados, suspensos ou redirecionados na última semana, por causa dos problemas com pagamentos, segundo fontes a par das movimentações.

"Isso é um desastre total", disse Luis Hernández, líder sindical do setor petroleiro. "Quase não há como transportar o petróleo."

O czar do petróleo da Venezuela, Manuel Quevedo, disse que seu governo está exigindo pagamento adiantado pelos carregamentos de petróleo por causa das sanções. E também que está em busca de novos compradores, sem, porém, especificar onde.

"Isso afetará os mercados mundiais de petróleo", disse Quevedo no domingo, num programa de TV pró-governo. Ele chamou de roubo as sanções dos EUA. "Essa agressão não vai passar em branco."

Apesar disso, os preços do petróleo caíram ontem, puxados pelo aumento dos estoques nos EUA, pelos temores de desaceleração econômica e pela alta do dólar, moeda de referência do setor.

Imagens de satélite obtidas no fim de semana pelo site FleetMon, que monitora carregamentos de petróleo, mostram várias dezenas de navios que normalmente carregam petróleo e derivados, parados nas águas de Maracaibo, a capital petrolífera da Venezuela, numa evidência visual da desaceleração das importações e exportações relacionadas ao petróleo. Vários desses navios petroleiros transportaram cargas para Corpus Christi, no Texas, e Nova York nas últimas semanas, segundo a FleetMon.

As autoridades venezuelanas leais a Maduro suspenderam um carregamento de petróleo que deveria deixar Maracaibo rumo aos EUA na terça-feira passada, temendo que os recursos com a venda do petróleo acabassem nas mãos de Guaidó, segundo afirmou uma fonte. O navio estava carregando petróleo de um campo explorado por meio de uma joint venture entre a Chevron e a estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA). Uma porta-voz da Chevron não quis comentar o caso. A Lukoil e a Repsol não retornaram pedidos de entrevista.

As sanções parecem já estar afetando a produção de petróleo da Venezuela, segundo fontes de dentro e de fora do país, embora haja divergências nas estimativas quanto à extensão do problema.

Autoridades sindicais e pessoas que acompanham de perto as operações da PDVSA disseram que o acúmulo dos estoques para exportação derrubou a produção de petróleo para bem menos de 1 milhão de barris/dia, uma queda de mais de 10% em relação a dezembro, e menos da metade do que o país produzia 18 meses atrás.

A consultoria Wood Mackenzie estimou a produção em 1,1 milhão de barris/dia. Mas até alguns monitores externos estão vendo grandes quedas. A Genscape, que monitora a produção mundial de petróleo por meio das labaredas dos campos de petróleo, estima que somente na quinta-feira a produção da Venezuela caiu cerca de 60 mil barris.

"Esse tipo de queda não está excluída, em grande parte devido aos desafios da sustentação da produção e o impacto geopolítico do redirecionamento do fluxo de petróleo e outros produtos", diz J. Alexander Blackman, executivo da companhia americana de energia Standard Delta.

Não está claro se a queda na produção vai durar. Grande parte disso vai depender do sucesso da estratégia dos EUA para derrubar Maduro e colocar a receita do petróleo nas mãos da oposição.

A China e a Rússia continuam apoiando Maduro e poderão conseguir reverter o impacto inicial sobre as exportações e a produção do país, segundo alguns analistas.

Dezenas de milhares de venezuelanos ocuparam as ruas de Caracas no sábado para apoiar Guaidó, que os EUA e outros países reconheceram como presidente interino do país. Mas o governo autoritário de Maduro não demonstra sinais imediatos de que vai abrir mão do poder.

Um impasse prolongado ameaça abalar ainda mais a economia venezuelana, que luta há anos com a falta de alimentos, altas taxas de crimes violentos e a maior inflação do mundo. A Venezuela depende dos petrodólares para importar a grande maioria de seu suprimento de alimentos, além dos componentes de mistura de que precisa para produzir gasolina, uma dura realidade para um país que se encontrar sobre as maiores reservas de petróleo do mundo.

Pelo menos inicialmente, as sanções parecem estar tendo um impacto bem mais significativo sobre o PIB da Venezuela do que o antecipado pelo governo Trump.

O secretário do Tesouro americano, Steven Mnuchin, disse na semana passada que os EUA estão permitindo que certas empresas continuem negociando com a Venezuela por um período de tempo limitado, para "minimizar quaisquer rupturas imediatas".

As sanções dão um período de tolerância até abril para algumas transações e licenças estendidas que permitirão a algumas companhias continuar operando até o meio do ano. Mas as medidas preveem que os pagamentos para a Venezuela sejam mantidos em contas remuneradas até que possam ser transferidos para o regime de Guaidó, uma medida que deverá travar os negócios enquanto Maduro permanecer no poder.

A Chevron, que recebeu uma licença ampliada para continuar operando com a PDVSA, disse que continua em consultas estreitas com os EUA para assegurar que está cumprindo com o combinado.

"O governo dos EUA está muito interessado em interagir conosco para entender nossa posição no local", disse na sexta-feira o executivo-chefe da Chevron, Mike Wirth. "No futuro previsível, achamos que poderemos manter uma operação boa, estável e segura na Venezuela."

Mas as regras americanas que limitam a venda de petróleo leve e de produtos para a diluição do petróleo venezuelano tornam difícil desenvolver os recursos do país, diz a Wood Mackenzie. Ela prevê que a produção venezuelana pode logo cair para 900.000 barris/dia.

Francisco Monaldi, especialista em energia da Universidade Rice, diz que as sanções poderão levar a produção de petróleo do país a cair quase pela metade no próximo ano e meio. "Se isso durar muito tempo, terá um impacto muito significativo sobre a indústria do petróleo de Venezuela, que já está numa situação muito precária."