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Retórica de Jair Bolsonaro (PSL) contra os investimentos chineses no Brasil


Como capitão da reserva, o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) faz questão de enfatizar, sempre que pode, a sua relação com o mundo das armas. Na última semana, quando a licença médica o impediu de ir a debates, ele visitou o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) e a unidade da Polícia Federal no Rio de Janeiro.

Uma de suas marcas na campanha é o símbolo de um fuzil que ele simula com as mãos. Não à toa, suas palavras costumam ser comparadas a disparos. E, como balas, podem acabar deixando feridos. A retórica contra investimentos chineses vem ganhando eco na medida em que o candidato vai se consolidando como líder nas pesquisas e provoca reações nos setores que mais dependem das relações com o maior parceiro comercial brasileiro. O temor é de que um ruído possa atrapalhar os negócios de empresas nacionais com a China, responsável por comprar um quarto do que o Brasil vende no exterior.

Em uma entrevista recente à Band, Bolsonaro subiu o tom nas suas restrições ao capital chinês e evidenciou desconforto com os investidores asiáticos. “Quando você vai privatizar, vai privatizar para qualquer capital do mundo? A China não está comprando no Brasil, ela está comprando o Brasil. Você vai deixar o Brasil na mão do chinês?”, questionou. Não é a primeira vez que ele menciona a intenção de limitar recursos do parceiro. O presidenciável carrega outra polêmica a respeito do tema no currículo. Em viagem à Ásia, no início do ano, Bolsonaro e sua comitiva visitaram Taiwan, que defende a sua independência em relação à China. Desde a década de 1970, a Organização das Nações Unidas (ONU) e a maior parte dos países reconhecem a política de “Uma só China”, que inclui Taiwan. Sinalizações independentes ao território podem ser mal interpretadas.

Fábio Schvartsman, presidente da Vale: “O que a China precisa o Brasil tem e o que o Brasil precisa é o que a China tem”.

Na viagem, Bolsonaro estava acompanhado do deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS), que será seu ministro da Casa Civil, e de seus dois filhos, ambos eleitos para o Congresso neste ano. Lá, eles visitaram escolas, fábricas e tiveram encontro com autoridades. Ao retornar ao Brasil, a comitiva recebeu uma reclamação formal dos chineses. Cesar Maia, pai do então presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), divulgou uma carta da embaixada chinesa com críticas ao grupo. O documento apontava a “profunda preocupação e indignação com a visita.” “Não só afronta a soberania e integridade territorial da China, como também causa eventuais turbulências na parceria estratégica global Brasil-China”, segundo o texto.

Na última década, os chineses se consolidaram como principal parceiro comercial do Brasil. De janeiro a setembro, as exportações somam US$ 47,2 bilhões ao país asiático. A pauta é concentrada em soja, petróleo e minério de ferro. Somente na Vale, os chineses são responsáveis por 42% das receitas do grupo. A mineradora observa com atenção o tema. “O que a China precisa o Brasil tem e o que o Brasil precisa é o que a China tem”, afirmou o presidente da companhia, Fabio Schvartsman, em evento, na terça-feira 16, ao ser questionado por jornalistas sobre as declarações de Bolsonaro. O executivo reforçou que uma disputa entre as “partes não é boa a ninguém” e que levará informações ao próximo presidente eleito para garantir o melhor encaminhamento da questão. Sua percepção foi endossada pelo diretor de grãos da Cargill, Paulo Sousa, que, no mesmo evento, considerou as trocas entre os dois países como uma relação de “ganha-ganha.” “Há uma dependência mútua”, afirmou Sousa.

Destino polêmico: Jair Bolsonaro (centro) e comitiva em visita à fábrica de Taiwan

Os chineses são hoje um dos principais investidores da infraestrutura brasileira. Desde 2003, eles já aportaram US$ 52,9 bilhões no País, em 102 projetos, segundo dados do Ministério do Planejamento (confira quadro ao final da reportagem). As restrições apresentadas por Bolsonaro dizem respeito sobretudo à área de energia, em que os parceiros têm sido protagonistas – a estatal State Grid, por exemplo, comprou uma participação majoritária na CPFL Energia, numa operação de mais de R$ 10 bilhões. “Qualquer candidato que vier a ocupar o cargo de presidente terá de enfrentar duas coisas fundamentais: a necessidade de recursos e o desafio de melhorar a infraestrutura. A China é parte dessa resposta”, afirma Anna Jaguaribe, conselheira do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e diretora do Instituto de Estudos Brasil-China (IBRACH). “Muito tem sido dito sobre a possível presença excessiva da China no Brasil, mas se for ver a participação total na economia certamente não é maior do que outras potências.”

Jaguaribe é uma das responsáveis pelo documento do Cebri que será entregue ao próximo presidente para ressaltar a importância da parceria e as diretrizes da relação bilateral entre os dois países. “Ruído faz parte da campanha, mas os candidatos estão muito preocupados em responder à demanda por melhoria econômica”, afirma a conselheira. Na questão institucional, China e Brasil também vem ampliando as relações, em iniciativas como o banco dos Brics e o fundo de investimentos Brasil-China, com US$ 20 bilhões disponíveis para financiamentos de projetos. “A China é um parceiro importantíssimo nosso. Eu duvido que alguém vá mudar isso”, afirma Bartolomeu Braz, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil). “Não sei se houve um desentendimento ou uma fala mal colocada, mas o que temos de compromisso com ele [Bolsonaro] é totalmente diferente. Não vejo como isso será usado como moeda de troca.” Na diplomacia, a retórica é parte importante do jogo, daí porque o candidato deveria tomar cuidado com a mira de suas palavras. O risco é o tiro sair pela culatra.