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Descobridor do pré-sal lamenta que país tenha perdido a oportunidade de desenvolver indústria

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Um dos mais importantes geólogos do mundo, Guilherme Estrella foi diretor de Exploração e Produção da Petrobras de 2003 a 2012. Enquanto gerente da estatal no Iraque, nos anos 70, descobriu o gigantesco campo de Majnoon. Nada, porém, se compara à descoberta do pré-sal, em 2006, na Bacia de Santos, com formação geológica milenar do sal, quando da separação do continente americano da África. Além das gigantescas reservas de petróleo e gás, Estrella vislumbrava no pré-sal uma chance única para desenvolver o parque industrial brasileiro, gerando tecnologia, emprego e renda até 2050, o que mudaria a qualidade vida da população.

Em entrevista, no JORNAL DO BRASIL, a Gilberto Menezes Côrtes e Gabriel Vasconcelos, Estrella lamenta que, na Lava-Jato, o Brasil não tenha feito distinção entre a culpa dos empresários e a responsabilidade das empresas e seus quadros. Tal levou à destruição de um capital humano e empresarial que vai custar a ser recuperado. Para Estrella, o próximo presidente deve olhar o pré-sal sob a ótica da industrialização e da defesa da soberania nacional.

JB - As grandes ocorrências do pré-sal na Bacia de Santos são únicas ou têm paralelo em outros locais do mundo?

Guilherme Estrella - Quem souber responder fica bilionário. Na separação entre os dois continentes, América e África, ocorreu a formação das rochas geradoras, dos reservatórios que contêm o petróleo sob pressão e do próprio sal. Então, se cogitava que, do lado africano, aconteceria o mesmo que aqui. Mas a ruptura não foi geometricamente no centro da faixa de separação. O recorte do litoral explica isso. É na reentrância do Golfo de Santos que fica a principal bacia do pré-sal. Uma área gigantesca, que, pelo menos, até agora, não foi identificada do lado africano.

Macaque in the trees
Guilherme Estrella (Foto: José Peres)
O que explica a larga demanda pelos negócios do pré-sal, sobre a Bacia de Campos, por exemplo?

A Bacia de Campos foi e ainda é muito produtiva. Lá, há óleo em cima do sal. Óleo que migrou da parte de baixo para cima, mas o modelo de migração do óleo ainda não é bem conhecido. Por isso, se descobria um campo e se passava meses ou até anos para se descobrir outro. A vantagem do pré-sal na Bacia de Santos é que, ao final, você tem a garantia de grandes descobertas com pouco risco. Não se fura mais poço seco. E isso impacta a demanda organizada de equipamentos. Em Campos, os equipamentos eram contratados para um campo só. Era difícil utilizar a riqueza para um programa em escala de desenvolvimento nacional. O pré-sal permite isso.

Além disso, também tem o gás…

Sim. Mas o fundamental mesmo é a garantia de energia em forma de petróleo e gás para o Brasil pelo século XXI inteiro, além da possibilidade de expansão industrial que traz consigo. Essas reservas são de tão grande escala que a sua exploração permite a criação de um amplo e duradouro projeto de desenvolvimento industrial porque permite saber que vai precisar de cinco turbinas hoje e dez amanhã para navios de produção de petróleo (FPSO). É possível preparar um programa de 50 anos de turbinas elétricas e outros equipamentos para estes navios. Em cada navio-plataforma há três turbinas. Ora, se você vai ter 50 navios, são 150 turbinas e você pode organizar isso em 20, 30 anos. Nessa linha, as primeiras dez você importa, mas durante a fabricação e importação das outras dez, você monta um parque de fabricação interno e pode atrair quem faz essas turbinas aero-derivadas, a GE, Rolls Royce e Siemens, que têm o monopólio. Quando estava lá, a primeira exigência que fizemos foi a manutenção no Brasil. Porque, se queima uma turbina dessas, tem que mandar para a Escócia. Além do petróleo em si, a grande riqueza do pré-sal está no domínio da tecnologia e na oportunidade de ativação de uma enorme cadeia de indústria por décadas, gerando emprego e renda.

Por que as multinacionais não vieram?

Porque o Brasil cometeu um erro. Quando a Lava-Jato eclode, cancelam-se os contratos de construção dos navios, onde entrariam as compras não só dessas turbinas, mas também bombas, válvulas...Tudo vai a zero. Aí se desestrutura todo o projeto que tinha como base a engenharia nacional. O erro foi punirmos as empresas e não as pessoas. Que se puna os corruptos, mas não as empresas. O resultado é que muitas empresas foram à falência. Demitimos 50 mil engenheiros, milhares de trabalhadores e os estaleiros, que estavam sendo preparados para produzir equipamentos na fronteira tecnológica em termos de qualidade e segurança operacional, fecharam as portas de uma hora para outra. Na crise americana, o governo americano não fez isso. A GE, a GM e o CitiBank estavam falidos. O que eles fizeram? Trataram o problema e injetaram dinheiro. Aqui, bastava manter os contratos da Petrobras. Poderiam ter chamado a Justiça para fazer intervenção na empresa, aprovar rapidamente um contrato de leniência que desse acesso aos lucros que adviriam dos contratos com a Petrobras e auditar os contratos para ver se os preços estavam na média internacional.

Os fornecedores locais, como a Sete Brasil, também não estavam muito endividados?

Quem descobriu o pré-sal, com projeções de 100 bilhões de barris e o petróleo a US$ 140, tinha crédito a vontade. Até hoje a Petrobras vai ao exterior e aparece na mesa do banqueiro três, quatro vezes mais do que o valor que precisa. O banco quer garantia de pagamento. Hoje, mesmo com os preços abaixo do que estavam na época, ainda vale a pena, até porque o custo caiu. O mais importante ainda é a garantia que a empresa dá, como operadora única, de pagar os empréstimos. Se você apresenta ao banqueiro um portfólio de projetos como esse, ele empresta. O pré-sal não tem risco.

Hoje o pré-sal tem seis operadoras, sendo cinco estrangeiras. Impor a Petrobras como operadora única não comprometeria a ativação dos campos enquanto o petróleo ainda é atraente ao mundo?

A matriz energética mundial tem, hoje, de 70% a 75% de combustíveis fósseis, dos quais 50% são petróleo e gás. As previsões até 2040 são de que isso mude muito pouco. Assim, para o projeto de desenvolvimento de médio e longo prazo apoiado no pré-sal, é necessário que a Petrobras seja operadora única, porque é o operador quem tem o poder de escolha dos produtos industriais e da engenharia que são utilizados na produção do petróleo. Essa é a grande briga. A Petrobras, inclusive, induziria a inovação. Porque o conceito moderno de indústria não é fabricar automóveis, mas sim acoplar o processo industrial à inovação. O PIB brasileiro tem 23% de participação industrial, a indústria de transformação em particular tem 12%. Quanto da nossa Indústria guarda inovação? Só 3%. Isso porque fabricamos modelos Volkswagen e Ford, mas o centro de inteligência e inovação estão nos países de origem. O pré-sal nos dá a chance de desenvolvermos os nossos próprios centros de inovação até para competirmos internacionalmente no futuro.

O que o senhor pensa da disputa presidencial?

Em qualquer análise da conjuntura brasileira, é preciso partir de uma visão sobre o que o país representa para o planeta em termos de recursos naturais. A Terra vai chegar a 10 bilhões de habitantes na metade do século e três bilhões têm pouco acesso a água potável e saneamento básico. É nesse contexto que o Brasil é o 2º maior produtor de alimentos e o país mais rico do planeta em minério. Em um mundo sedento por água, somos o país com os dois maiores aquíferos subterrâneos do planeta, Alter do Chão e Guarani, e aquele melhor coberto por bacias hidrográficas. Entre outras coisas, isso significa irrigação e, portanto, potencial agrícola. Um lugar decisivo para a humanidade neste século e, portanto, alvo de enormes interesses estrangeiros. O cidadão brasileiro precisa olhar para isso e saber que escolhe não só os rumos de sua própria vida, mas também o de seus filhos e netos.