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Construções pioneiras de Brasília chegam ao limite depois de 50 anos

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Um desabamento marca Brasília. Às 11h45 da última terça-feira, um viaduto desmoronou e uma cratera se abriu em uma das vias expressas mais importantes da capital. O buraco no Eixão é a imagem de que o concreto, símbolo do Brasil moderno, exige atenção. O que preocupa especialistas é a velocidade com que as estruturas vão cobrar a fatura da ausência de manutenção. Como a principal infraestrutura do Plano Piloto foi construída praticamente na mesma época e a toque de caixa, acidentes como o do viaduto da Galeria dos Estados podem ocorrer em uma sequência mais constante do que a capacidade de resposta do poder público. O alerta também é válido nos prédios residenciais.

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Preceitos da engenharia civil orientam que a vida útil de uma construção, com manutenção, é de 50 anos. Brasília completará 58 em 21 de abril. Por isso, a preocupação com o pouco cuidado com a conservação. Embora a construção da capital tenha seguido um ritmo alucinante, especialistas alertam que acidentes como os do viaduto da Galeria dos Estados e do prédio da 210 Norte estão relacionados à falta de manutenção, não à qualidade. “Vai haver uma corrida contra o tempo para a manutenção, porque existe um volume grande de obras envelhecidas, que não tiveram a conservação correta”, alerta Renato Cortopassi, diretor de projetos do Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon-DF).

Cortopassi adverte que o custo de reparo em obras sem manutenção cresce exponencialmente.  “Por fim, a única opção é a demolição”. O Departamento de Estradas de Rodagem (DER-DF), responsável pelo Eixão, não informou quanto foi gasto em manutenção com o viaduto sobre a Galeria dos Estados nem quais intervenções foram feitas ao longo de sua história. Levantamento obtido pelo Correio, com dados do Sistema Integrado de Gestão Governamental (Siggo), mostra que, nos últimos cinco anos, o GDF deixou de usar um terço da verba destinada para manutenção e recuperação de pontes e viadutos: R$ 29 milhões.

Prazos apertados

Do plano de transferência da capital do Rio de Janeiro para o Planalto Central à inauguração foram cinco anos. Brasília precisava ser entregue ainda no governo de Juscelino Kubitschek. O engenheiro Bruno Contarini, 84 anos, responsável por várias obras na nova capital, entre elas o viaduto sobre a Galeria dos Estados, comenta que circulava um temor de que, se a cidade não fosse entregue, o próximo presidente deixaria a proposta de lado. Em algumas obras, como a do Teatro Nacional, o governo estipulou multa de 1% por dia, caso o prédio não fosse entregue no prazo.


O viaduto sobre a Galeria dos Estados foi erguido às pressas. O pedido de obra ocorreu no fim de dezembro de 1959. A solicitação da Novacap era explícita: tinha de estar pronto até 21 de abril de 1960, data da inauguração da cidade. Os engenheiros entregaram a estrutura em fevereiro de 1960. Cerca de 50 dias após o início da empreitada. “Na inauguração de Brasília viriam muitas autoridades pelo aeroporto. Precisava melhorar o acesso do terminal até a Praça dos Três Poderes. Mas aí eles descobriram que se podia fazer um viaduto”, lembra Bruno Contarini.

Regras do tombamento


É preciso correr contra o tempo para garantir mais vida útil às estruturas. Sobretudo quando se trata de uma cidade tombada como Patrimônio da Humanidade. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) acompanha as intervenções na Galeria dos Estados, pois todas as obras precisam do crivo da instituição. Isso garante que as características sejam preservadas. O órgão garante: as duas pistas construídas emergencialmente deixarão de existir logo após a restauração do viaduto (leia entrevista ao lado).

O Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Distrito Federal (CAU-DF) também monitora as alterações no centro de Brasília. “Vamos acompanhar a execução para ver se a escala é mantida. Quando Lucio Costa projetou o viaduto, pensou em uma cota de altura muito sensível, um pouco mais baixa, de forma que a pessoa que estivesse no Setor Comercial conseguisse visualizar o Setor Bancário”, explica Daniel Mangabeira, presidente da entidade.

Arquivo histórico

Pesquisadores do Arquivo Público do DF vasculham o acervo em busca da planta do viaduto que desabou. Muitos dos documentos da época da construção do Eixo não estão digitalizados. O Correio levantou parte da papelada, como a ata manuscrita que registrou a reunião que pediu a construção do viaduto, o contrato do engenheiro calculista Bruno Contarini e um ofício encaminhado ao presidente JK que pede a autorização para a obra e ressalta a sua urgência.

Diretora de Tratamento e Preservação do Arquivo Público do DF, Tereza Eleutério de Sousa acompanha as buscas. Elas podem ajudar na investigação das causas da queda. “Há textos com especificações técnicas de engenharia e de materiais usados.”

Uma das dificuldades para a localização da planta do viaduto é a nomenclatura usada nos textos de engenheiros e arquitetos. “Os termos usados e como a obra era chamada são bem diferentes do que conhecemos hoje”, pondera.

Um detalhe na pesquisa realizada pela reportagem chama a atenção. Um documento de julho de 1976 revela que os viadutos e passagens de pedestres do Plano Piloto passariam por obras de “alargamento em concreto estrutural”. A Novacap destinou à intervenção 55 mil cruzeiros. No mesmo ano, o órgão pediu a construção de três viadutos em concreto armado, ligando o Setor Comercial Sul ao Setor Bancário Sul.