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Polêmica com venda de material do Estaleiro Rio Grande como sucata é o reflexo da política no Brasil

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Em decisão polêmica, a Petrobras resolveu vender como sucata diversas partes do que seriam as plataformas P-71 e P-72, estruturas que encontram-se em Rio Grande, nas dependências do Estaleiro Rio Grande, do Grupo Ecovix, que encontra-se em recuperação judicial. O possível projeto da P-73, deve ser igualmente enterrado.

De chineses interessados nas 80 mil toneladas de estruturas e módulos praticamente prontos para sua montagem e integração, ao já conhecido Grupo Gerdau, todo tipo de especulação é levantada, e poucas explicações são dadas à Sociedade Rio Grandense, que vê agora um grande sonho se despedaçar diante de seus olhos.

A P-71, por exemplo, já encontrava-se em estágio avançado de construção e, segundo os envolvidos no projeto, o custo de cortar é praticamente o mesmo de concluir.

Quem conhece a cidade sabe da mudança causada pela chegada da Indústria Naval na mesma. Rio Grande não é mais a mesma de alguns anos atrás. A cidade passou por uma onda de prosperidade, cresceu, ficou ainda mais bela, abriu escolas, aqueceu a Economia local, investiu em infraestrutura e agora passa por uma situação preocupante onde os desempregados já chegam a 20 mil, e isso somente os oriundos da Indústria Naval. É claro que há os efeitos colaterais nos setores de vendas de produtos e serviços.

Recentemente o Prefeito de Rio Grande, Alexandre Lindenmeyer, que esteve presente prestigiando a Marine Summit I, um evento do Grupo Portal Marítimo, que foi realizado dentro da Marinetec South America este ano, declarou que o Brasil faz hoje uma mudança de 180 graus na sua política industrial. Somente no Rio Grande do Sul, há três grandes estaleiros consolidados entre Rio Grande e São José do Norte, podendo gerar 30 mil empregos diretos, e aproximadamente mais 200 mil indiretos.

Segundo Lindenmeyer, decisões como a que foi tomada afetam não somente a Economia local, mas toda a cadeia nacional, apesar de os efeitos serem sentidos mais claramente na cidade de Rio Grande que investiu em sua infraestrutura para acompanhar o crecimento e hoje amarga estatísticas que em nada se comparam ao passado recente.

Profissionais diversos buscaram qualificação através de programas como PROMINP e PRONATEC, investindo em sua qualificação e em seus sonhos de um futuro melhor. Agora uma curva de aprendizagem com equipamentos de alta tecnologia foi abruptamente interrompida e toda a força de trabalho anteriormente empregada foi reduzida para 2 mil trabalhadores e em breve reduzirá ainda mais para algo em torno de 400, que serão responsáveis por cuidar da manutenção do local e cortar o que já foi construído.

O que ocorreu em Rio Grande foi apenas mais um exemplo de decisão política sem a mínima participação técnica. Tanto na decisão de se construir algo deste porte como na decisão de agora simplesmente cortar tudo.

E isso tivemos a oportunidade de dizer ao Prefeito Lindenmeyer durante a Marine Summit I. Decisões sobre se construir algo dessa dimensão num local como Rio Grande, onde simplesmente não há demanda, a não ser que seja forçada por decisões puramente políticas, devem ser tomadas com muita técnica envolvida. A demanda naval local, gerada pela atividade pesqueira e principalmente por toda a atividade hidroviária ligada ao Rio Guaíba, parece não ter sido levada em conta, pois a grande pergunta a ser feita deveria ser “E quando as plataformas forem concluídas?”. Ou a administração pública acreditava que novos contratos simplesmente “brotariam”, do nada?

Uma vez que a decisão foi tomada, e que as estruturas foram direcionadas para Rio Grande, vem agora outra decisão que, igualmente à primeira, tem um caráter político, e tenta passar para a Sociedade que há um viés técnico, mas não há. Definitivamente.

É a história mais que milenar do “abismo atrai abismo” e hoje tem-se um grande Polo Naval, com uma incrível capacidade ociosa e um enorme impacto na sociedade rio grandense.

Passado não se muda, temos o presente nas mãos e só podemos mudar o futuro. A hora é agora e não adianta ficar no “mimimi” político, pois as decisões já foram tomadas.

Acredito que é o momento de se investir em melhoria de processos, gestão e principalmente no envolvimento de personagens que possam dar o devido suporte técnico, com conhecimento de mercado, às decisões tomadas.

Um dos maiores equívocos da Operação Lava Jato, por exemplo, é penalizar pessoas jurídicas ao invés das físicas. Empresas sendo paradas por causa de pessoas. Será que é esse o caminho que devemos seguir? O mínimo que deveria ocorrer seria a responsabilidade compartilhada.

Que tal gerar meios, através de subsídios para, por exemplo, atrair clientes da crescente indústria offshore que agora se forma na porção mais meridional da América do Sul?

Que tal adaptar o parque industrial para a demanda do Guaíba e das hidrovias que desembocam nos arredores do Rio Grande do Sul?

Há muita coisa que pode ser feita, porém, a ajuda de profissionais técnicos na tomada de decisão é extremamente necessária e nada terá efeito imediato. E talvez more aí o desinteresse dos políticos, afinal, no Brasil, de forma geral, “é tudo feito para as próximas eleições”.

Fazer o quê?

A Administração Pública e a Sociedade Civil Organizada tem duas opções: agir pelo bem comum, apresentando soluções sustentáveis ao longo do tempo, ou então sentar e chorar. Qualquer outro tipo de decisão será paliativa, será um tapa buraco.

Duas coisas básicas de Gestão: payback e break even. Joga aí no Google, se você, leitor, não conhece esses conceitos. Isso é o “basicão” de Gestão, e que sempre é negligenciado por projetos onde a máquina pública está presente, sempre e profundamente influenciada por decisões políticas tomadas por pessoas completamente leigas no core business (mais um conceito para buscarem no Google) que envolve aquela atividade.

Ou resolve ou abandona o projeto, simples assim.

Tem jeito sim. Há um caminho do meio sim. Talvez falte vontade política das partes que resolveram polarizar o nosso país. Os políticos estão com seu salário garantido no final do mês.

E você que nos lê? Está?


Por Rodrigo Cintra