WHAT'S NEW?
Loading...

Depois de tantas promessas, gigante de eletrônicos desistiu de apostar no Brasil


A linha de produção do iPhone 7, instalada no galpão B da Foxconn “Anhanguera”, em Jundiaí (SP), estava em suas primeiras semanas funcionando a pleno vapor. Mas o burburinho no chão de fábrica ainda era sobre o esvaziamento do galpão A, responsável pela produção do iPad, interrompida dois meses antes.

A promessa da diretoria era que nada além daquilo iria mudar. Os funcionários acreditaram. Mas, na manhã de 6 de junho, o cenário mudou. Ao chegarem para trabalhar, muitos deles foram chamados pelas chefias e orientados a passar no departamento de Recursos Humanos.

Não era nem meio-dia e mais de 50 pessoas já haviam sido demitidas. No turno da noite, o roteiro se repetiu, segundo relatado à imprensa por uma ex-funcionária, que não quer se identificar. O capítulo final dessa história tem data marcada. Até o fim deste ano, a linha do iPhone deve ser encerrada, acabando com a produção de equipamentos da Apple no mercado brasileiro. A Foxconn deve manter apenas a produção de produtos para outras empresas, assim como um entreposto de serviços.

Esse foi mais um episódio da aventura brasileira da Foxconn, a gigante taiwanesa de eletrônicos, que fatura US$ 143 bilhões, comandada por Terry Gou. Conforme adiantou a revista Istoé em 14 de junho deste ano, que a empresa está saindo do País. Após a publicação, a companhia enviou nota assinada pelo gerente de recursos humanos, Valdeci Besson, afirmando que a matéria “não condiz com a realidade e apenas causou apreensão aos colaboradores”. Procurada novamente para esclarecer as demissões na linha de iPhones, a Foxconn não respondeu aos pedidos de entrevista. Mas as ações praticadas pela empresa, de fato, se chocam com a versão oficial da companhia.

Em 2011, Gou prometeu investir US$ 12 bilhões no Brasil e empregar mais de 100 mil pessoas. À época, a presidente Dilma Rousseff e Aloizio Mercadante, então ministro de Ciência e Tecnologia, comemoraram o investimento. “Ele (Terry Gou) tem uma visão otimista em relação ao papel do Brasil no futuro da economia internacional. Tudo estimula esse investimento. Eles estão bastante determinados em avançar nessa direção”, disse Mercadante, em 2011, logo depois do anúncio de investimento.

Dilma, animada, divulgava histórias de como não largava seu iPad e de como pretendia criar uma indústria de alta tecnologia no País para fabricar tablets de baixo custo. Até o então garoto-propaganda do “Brasil que deu certo” Eike Batista quis entrar na roda. Ele seria o parceiro nacional e investiria junto US$ 4 bilhões e receberia a tecnologia dos chineses. Seis anos depois, boa parte dessas promessas não foi cumprida. Na época, os céticos já apontavam para a dificuldade de Gou cumprir a promessa. O número de funcionários seria praticamente o de todo o mercado de tecnologia no País, com 130 mil empregos.

Na Foxconn, a força de trabalho nunca passou de 10 mil. No ano passado, era de aproximadamente 4 mil nas fábricas de Jundiaí. Esse número, no entanto, não contabiliza as demissões ocorridas, em 2017, nas linhas de produção de iPads e iPhones. A companhia taiwanesa conta com seis fábricas no Brasil: duas em Manaus, uma em Santa Rita do Sapucaí (MG) e três em Jundiaí. Dessas unidades saem itens variados, como computadores, notebooks, componentes eletrônicos e até cartuchos de impressoras para diversas empresas instaladas no País. Em 2015, a Foxconn prometeu ainda construir uma unidade em Itu (SP), município que chegou a doar um terreno, mas as obras não passaram da terraplanagem.



O investimento no Brasil nunca foi revelado, mas fica longe dos US$ 12 bilhões, segundo analistas ouvidos. Durante os primeiros anos da operação, funcionários e sindicatos reclamavam das condições insalubres, da falta de planos de carreira e dos baixos salários. Gou ironizava os profissionais brasileiros. Em entrevista ao jornal The Wall Street Journal, ele disse que, ao ouvirem a palavra “futebol”, eles paravam de trabalhar. Gou tinha como referência os trabalhadores chineses. Segundo um estudo da Conference Board, uma organização americana que reúne pesquisadores e empresas de 60 países, um chinês é 422% mais produtivo que um brasileiro.

A pressão exercida pela empresa sobre os funcionários na China é tamanha que, entre os anos de 2011 e 2013, uma onda de suicídios assustou a própria Apple, que iniciou uma investigação. Afinal, o que deu errado para a Foxconn? “A produção no Brasil nunca decolou. Produzir parte na China para terminar no Brasil é muito caro e a transferência de tecnologia é ainda mais”, diz Tina Lu, da consultoria asiática Counterpoint, especializada em tecnologia. Na Ásia, a produção do iPhone 7 custa US$ 224 por unidade (aproximadamente R$ 740), segundo estimativa feita pela consultoria americana IHS Markit.

Ao somar o Custo Brasil, para fabricar o aparelho no País, estima-se que são gastos quase R$ 1.000, sem considerar impostos cobrados do varejo. Não bastasse isso, o mercado de tablets esfacelou, afetando o iPad. Em 2016, as vendas do equipamento no Brasil, ao caírem 32%, acumularam o segundo ano de retração, de acordo com a consultoria IDC. O mercado de smartphones também encolheu. E pior: a Apple perdeu terreno. Em 2015, de cada 100 smartphones vendidos no País, a empresa da maçã vendia oito, de acordo com a Counterpoint. No ano passado, essa relação caiu para quatro. Outro fator que contribuiu para os problemas da Foxconn foi o fim da Lei do Bem, que reduzia em 9,2% os impostos para quem fabricava smartphones no mercado brasileiro.

Além disso, a Lei de Informática, que a depender da região desonerava até 95% do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI), está sendo contestada na Organização Mundial do Comércio (OMC). “Estamos brigando na OMC para reverter a decisão sobre a Lei de Informática”, afirma Humberto Barbato, presidente da Abinee, entidade que representa as empresas do setor elétrico e eletrônico. “Sem ela, é difícil justificar a produção local.” A Apple, questionada sobre o fim da produção no País, não se pronunciou. A Foxconn, internacionalmente, voltou seus esforços para a Indonésia e para a Índia. Pressionado pelo presidente, Donald Trump, Gou estuda investir também US$ 10 bilhões em uma unidade de telas nos Estados Unidos. Aqui devem restar apenas galpões vazios.



Por Machado da Costa