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Por que a concentração de exportações para a China não é saudável

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Poucas iniciativas simbolizam tão claramente a capacidade de planejamento de longo prazo dos chineses quanto o plano One Belt, One Road, de interligação com a região da Eurásia. Os quase US$ 900 bilhões de investimentos programados para os próximos anos em ferrovias, portos e rodovias, por mais de 60 países, servirão de contraponto a uma esperada desaceleração da economia local. Para os padrões do gigante asiático, uma meta de crescimento de 6,5% do PIB, como a de 2017, significa uma perda de fôlego, tanto em relação ao ano passado (6,7%) quanto em comparação à década de 2000, quando o ritmo de avanço de dois dígitos era a regra dominante.

Por enquanto, o desempenho econômico do parceiro é mais um motivo de comemoração do que de preocupação ao Brasil. O dragão segue muito vivo e, voraz, embala as exportações brasileiras ao melhor ritmo em seis anos, ocupando um espaço ainda maior no rol dos parceiros de maior peso no comércio exterior. O superávit da balança comercial brasileira, uma das principais notícias positivas na economia neste ano, mostra bem esse fenômeno. No primeiro quadrimestre, o saldo ficou positivo em US$ 21,4 bilhões, o melhor valor para o período desde 1989.

Por trás do resultado, está uma enorme dependência do mercado chinês. A participação do parceiro asiático nas vendas externas teve o maior salto dos últimos nove anos. Foram quase cinco pontos de avanço no acumulado de janeiro a abril, em relação ao mesmo período de 2016 (veja tabela ao final da reportagem), enquanto a fatia dos principais parceiros ficou praticamente estável. A China já é responsável por absorver cerca de um quarto dos produtos made in Brazil enviados ao exterior, ou quase US$ 17 bilhões em mercadorias. Também é a maior compradora de cinco dos dez produtos de maior volume na pauta de exportações, com participações crescentes e que chegam a mais de 80%.

Os embarques brasileiros são concentrados em quatro produtos principais: soja, minério de ferro, petróleo e celulose. Em boa parte, o avanço está ligado à alta nos preços dessas commodities. As cotações de minério de ferro, por exemplo, subiram 20% no primeiro trimestre. Mas também houve avanço nos volumes, com destaque principal para o petróleo, com alta de 68% nos primeiros quatro primeiros meses do ano. Além da concentração histórica em produtos básicos, o Brasil tem conseguido ganhar campo na proteína animal.

A China é o terceiro maior destino das carnes suínas brasileiras. Em aves, alcançou o segundo posto e tem potencial para tomar o primeiro, em dois anos. Nas carnes bovinas, já figura na liderança. “A procura de empresas brasileiras para abrir o mercado chinês é inimaginável, porque vêem lá um grande potencial e estabilidade”, afirma Francisco Turra, presidente-executivo da Associação Brasileira de Proteína Animal.

Não por acaso foram direcionados aos chineses os primeiros esforços do ministro da Agricultura, Blairo Maggi, para reverter os embargos após a operação Carne Fraca da Polícia Federal, em meados de abril. Apesar da rápida suspensão do embargo, os dados do mês passado foram impactados, com uma queda de 30% em frangos e 18% em carnes. Para o setor, o problema está resolvido. Desde o episódio, três novos frigoríficos foram autorizados a vender aos chineses e outros 12 estão em processo de habilitação.

Além de aumentar os volumes, o esforço agora é conseguir levar produtos de maior valor agregado, como pré-cozidos e pré-prontos (em vez de frangos apenas, vender também nuggets, por exemplo). Um estudo encomendado pelo setor a uma empresa de consultoria está mapeando as preferências dos chineses para os processados. “Antes, eles resistiam porque queriam proteger a produção local, que era expressiva. Na medida em que diminuiu a produção e o consumo só aumenta, há potencial”, afirma Turra. “Uma vez se dizia que a China tinha gente, mas não tinha dinheiro. Hoje, a China tem gente e dinheiro.”

Ainda que concentrada em produtos mais básicos na parte das exportações, a relação bilateral, que movimentou US$ 25 bilhões de janeiro a abril, pende a favor do Brasil. O superávit no quadrimestre ficou em US$ 8,9 bilhões, pouco mais do que o dobro de igual período do ano passado. “O comércio Brasil-China ainda é muito pequeno para a imensidade dos dois países”, afirma Charles Tang, presidente da Câmara Brasil-China (CCIBC). “Estamos só no início.”

Na sua avaliação, para que os brasileiros consigam ampliar a participação de produtos industrializados nas exportações, será preciso aprofundar o conhecimento sobre o mercado chinês e o País tem de fazer outra lição de casa: reduzir custos. “Se conseguir reduzir o custo-Brasil e tornar os produtos mais competitivos, não há razão para que a China não compre mais.” A dependência dos chineses no comércio exterior traz duas constatações.

Significa que o Brasil pouco avançou na pauta exportadora além das commodities. Por outro lado, deve garantir o aumento dos embarques e sustentar a retomada atual na balança comercial. “O ideal é não ficar tanto ao sabor das commodities e fazer um esforço para diversificar um pouco a pauta”, afirma Lia Valls, pesquisadora da área de Economia Aplicada do FGV/Ibre. “Isso está muito atrelado com a possibilidade de negociações com os chineses ao fazerem investimentos no Brasil.”

Enquanto isso, os benefícios seguem injetando ânimo neste ano. No balanço do primeiro trimestre, a Vale destacou a demanda recorde de aço na China como um dos impulsos para as vendas de minério de ferro. A mineradora, que registrou lucro de R$ 7,9 bilhões no período, indicou que ao longo do ano deve se beneficiar dos investimentos programados no projeto One Belt, One Road. Para a balança comercial como um todo, a expectativa também é favorável. Após o recorde no quadrimestre, o governo aumentou a previsão de superávit de US$ 50 bilhões para US$ 55 bilhões. Para a Rosenberg Associados, o resultado deve ser ainda melhor, podendo superar US$ 60 bilhões.

Diferentemente do ano passado, quando o saldo positivo (US$ 47 bilhões) se deu sobretudo pela queda das importações, o superávit em 2017 será obtido num cenário de aumento das exportações, o primeiro desde 2011, e de alta nas importações, a primeira desde 2013. Pode ser outro indício de recuperação da economia. “O setor externo, que sempre foi um problema nas outras crises, desta vez não é”, afirma Valls. Não se trata ainda da consagração de uma economia aberta e integrada, mas os bons ventos que sopram lá fora ajudam a impulsionar o barco da recuperação do PIB.

Sinais trocados na indústria

A queda acima do previsto da indústria em março frustrou a expectativa de analistas de que a esperada recuperação nas fábricas pudesse mostrar o setor engrenando. A produção industrial recuou 1,8% no mês, na comparação com fevereiro, e fechou o trimestre com uma leve alta, de 0,6%, a primeira após 11 trimestres de queda. Diante de uma base de comparação fraca, a percepção é de cautela sobre o desempenho. “O dado é positivo, só que muito baixo”, afirma Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). “Dentro desse cenário, não dá para falar em recuperação. Isso é estabilidade.”

O cenário deve clarear a partir do próximo trimestre. Pesa a favor da recuperação a trajetória de queda dos juros nos próximos meses e o alívio da inflação, que deve aumentar o poder de compra das famílias. Nas montadoras, uma melhora nas exportações ajuda a atenuar a apatia do mercado interno. Do campo, a safra recorde tem potencial para aumentar a demanda por máquinas ligadas à produção agrícola, enquanto o saque de contas inativas do FGTS surge como uma oportunidade aos fabricantes da linha branca.

Esses cenários já começam a aparecer nos números do primeiro trimestre, com destaque para o avanço de 10,6% em bens de consumo duráveis (carros e eletrodomésticos) e de 4,3% em bens de capital (máquinas agrícolas e para construção). Para o ano, a expectativa se mantém de crescimento, que deverá ser interpretado quase como uma estabilidade, já que ficará muito aquém de recuperar o nível perdido nos últimos anos. O mercado prevê alta de 1.5% em 2017. “O desafio continua grande. Pode ser que fiquemos por mais um tempo nesse fundo do poço”, afirma Cagnin.



Por Gabriel Baldocchi