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O reflexo da Lava Jato na Locar


Em 1988, Júlio Eduardo Simões fez uma escolha ousada. Herdeiro do JSL, um dos maiores grupos de logística do País, o empresário deixou a companhia, na qual trabalhou dos 14 aos 31 anos, para fundar a Locar, especializada na locação de equipamentos de grande porte, como guindastes e gruas. Mesmo longe dos negócios da família, a principal referência para construir sua trilha foi o pai, o imigrante português Júlio Simões, um ex-mecânico e motorista de caminhão, que construiu um império avaliado em R$ 1,6 bilhão.

Resultado de imagem para locar guindasteCom o patriarca, aprendeu a trabalhar incansavelmente, de “domingo a domingo”, e conheceu todos os macetes do setor. Aos 60 anos, esses ensinamentos são a sua maior arma para enfrentar os desafios que a Locar tem pela frente. A fase delicada teve início em 2014. O estopim foi a operação Lava Jato, que colocou em xeque boa parte da clientela da empresa, formada por empresas relacionadas a grandes obras de infraestrutura, como Odebrecht, Camargo Corrêa e Petrobras.

Com 90% de seus negócios ligados a essa carteira, a companhia passou a conviver com o cancelamento de contratos, além dos atrasos e da suspensão de pagamentos. “Muitas obras pararam ao mesmo tempo”, diz Simões. O impacto foi grande. Se, em 2013, a Locar faturou R$ 600 milhões e teve o melhor ano de sua história, em 2016, a receita foi de R$ 340 milhões. Apenas 30% desse montante está relacionado a obras. Os 70% restantes vêm de projetos em indústrias.

O estrago só não foi maior devido a uma decisão tomada por Simões bem antes, em 2008: transformar a companhia em uma sociedade anônima. Com isso, adotou modelos de governança, com auditorias independentes, o que blindou a empresa de qualquer envolvimento no escândalo. A queda nos negócios, no entanto, fez com que o empresário, que vinha se dedicando mais à presidência do conselho, voltasse a cumprir uma rotina intensa. “Costumo brincar que eu estava 70% fora da operação. Hoje, estou 200% dentro do dia a dia.”

Aposta: fruto de um  aporte de R$ 200 milhões, feito em 2013,a balsa Pipe tem perspectivas de mercado em licitações  da PetrobrasA primeira medida foi enxugar o time de três mil funcionários para os atuais 1,2 mil profissionais. Os cortes atingiram todos os níveis. Dos quatro vice-presidentes e doze diretores dos tempos de bonança, permaneceram um vice-presidente e quatro diretores. A empresa também aproveitou a alta do dólar para fazer caixa. “Nós vendemos um segmento inteiro, com 200 manipuladores, usados para movimentar cargas com garfos, ao exterior”, diz Marina Simões, gerente-executiva e filha de Simões. Ela não revela o valor obtido na venda.

Com 55% de suas máquinas ociosas, a Locar está dando mais peso a negócios que tinham pouca participação em sua receita. O plano é atuar em qualquer obra ou serviço que exija movimentação de carga ou de pessoas, o que inclui desde a pinturas de prédios até projetos em setores como mineração e siderurgia. “O mercado industrial oferece margens menores”, afirma José Henrique Bravo Alves, vice-presidente da companhia. “Mas é um segmento mais perene, com contratos mais longos e estáveis.”

Para João Batista Dominici, vice-presidente do Sindicato Nacional das Empresas de Transporte e Movimentação de Cargas Pesadas e Excepcionais, a diversificação é a melhor alternativa para o setor, que movimentou R$ 1,5 bilhão em 2016. “Sem grandes obras, não há outra escolha”, diz. A Locar também adotou um perfil mais cauteloso na renovação de sua frota de 1,5 mil equipamentos, avaliada em R$ 1,5 bilhão e com uma idade média de 5 anos. Os aportes seguem duas vertentes.

A primeira é buscar máquinas que tragam novas tecnologias e sejam mais eficientes. Em março, a companhia investiu R$ 30 milhões na compra de quatro guindastes da marca alemã Liebherr, que atendem serviços na indústria e grandes obras. A outra linha está relacionada a novos acordos. A empresa destinou R$ 15 milhões para a aquisição de empilhadeiras, muncks e guindastes, a partir de um contrato de cinco anos firmado com a Vale, no Complexo de Tubarão (ES). Entre outros clientes, a nova carteira inclui nomes como General Electric (GE), Embraport e Braskem. Fruto de um aporte de R$ 200 milhões, em 2013, a balsa Pipe é outra aposta.

Com foco no setor de óleo e gás, a embarcação foi desenvolvida para ajudar na instalação de tubos e dutos submarinos em águas com até 50 metros de profundidade. Para colocá-la em operação, a companhia tem no radar duas licitações da Petrobras, previstas para o fim do ano. Em 2017, a meta é faturar R$ 400 milhões. Esse crescimento, porém, não virá de grandes projetos. “Essa frente só será retomada entre 2018 e 2019”, diz Simões, que recorre a outra lição aprendida com o pai: “Passar por momentos difíceis é muito importante, até para mesmo que os negócios sejam duradouros. Vamos nos reerguer.”