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A Bahia fora dos trilhos


Sem dúvida a crise brasileira explica hoje boa parte das tragédias vividas pela Bahia. Mas a crise irá acabar. Com as eleições de 2018 é muito provável que um novo modelo econômico venha a ser implantado no país. Baseado em juros baixos e um real mais competitivo, esse modelo fará com que o país volte a se expandir aceleradamente, puxado sobretudo por exportações. Mas será que a Bahia está em condições, ou ao menos está se preparando para vivenciar, com sucesso, esse novo ciclo? Infelizmente não.

Mesmo deixando os anos recentes de lado, pegando os dados do IBGE, constatamos que o crescimento do PIB baiano, entre 2002 e 2013, não só ficou abaixo da média nacional, como apresentou o pior desempenho dentre todos os estados do Nordeste. Vários desses estados cresceram mais que a Bahia por ter o impacto de políticas assistenciais federais sobre uma base muito pequena. Mas esse não foi o caso do Maranhão, Ceará e Pernambuco, que cresceram, inclusive, bem acima da média nacional.

Outros que cresceram acima da média foram: os estados do Centro-Oeste, Minas, Pará, Santa Catarina e Espírito Santo. Analisando-se esses estados, percebe-se que todos possuem economias fortemente produtoras de commodities e ou com modernas infraestruturas logísticas. A Bahia é também um forte produtor de commodities. A sua infraestrutura logística, no entanto, sobretudo a portuária, deixa a desejar.

Essa precariedade é sem dúvida paradoxal. Afinal, temos a dádiva da Baía de Todos os Santos, a BTS, que, com portos praticamente naturais em suas margens, vem estruturando o desenvolvimento baiano a séculos. Ocorre, porém, que nos anos 70/80 tivemos a revolução dos contêineres, que reconfigurou por completo a logística mundial.

Possibilitando a padronização, os contêineres levaram ao desenvolvimento de uma nova geração de equipamentos de movimentação de cargas, com tamanhos cada vez maiores. Esse fenômeno foi sentido, sobretudo, no modal aquaviário, onde os navios, sem a limitação física das pistas, puderam evoluir livremente, gerando fantásticas economias de escala.

Assim, na atualidade, gigantescos navios porta-contêineres e graneleiros, passaram a exigir portos também gigantescos. Portos com profundidades da ordem de 20 m, e berços que já superam os 400m e, claro, com retroportos dotados de eficientes conexões rodoferroviárias. Esses são os chamados hub-ports que, atraindo indústrias de toda ordem, conformam as principais plataformas de desenvolvimento hoje existentes no mundo.

Como se sabe, hubs de grande porte já existem, ou estão em curso, em Santa Catarina, São Paulo, Rio, Espírito Santo, Maranhão, Pernambuco e Ceará. A Bahia, enquanto isso, perdeu vários investimentos, gastando muito tempo e dinheiro em projetos completamente equivocados, como a polêmica ponte Salvador-Itaparica, e a confusa Fiol, traçada para articular uma mina, que não existia, a um problemático Porto Sul, que dificilmente existirá. Dessa maneira, a Bahia acabou ficando fora dos trilhos do desenvolvimento, e assim seguirá numa provável retomada da economia.

Mas felizmente isso pode mudar. A BTS não se tornou uma maldição a ser evitada, ou ultrapassada a qualquer custo, como aparentemente supõem os atuais projetos governamentais. Ao contrário, ela continua uma grande dádiva. Só que agora, para que ela siga estruturando o desenvolvimento da Bahia, é preciso ir além de suas margens. É preciso explorar o imenso potencial de suas águas profundas, viabilizando o desenvolvimento de um grande, e supercompetitivo, complexo portuário logístico às margens de seu canal central. Estudos e projetos dessa natureza já se encontram em curso no setor privado, e esperemos que o governo acorde a tempo para os mesmos.



Por Marcus Alban, engenheiro, doutor em Economia pela USP e professor titular da Escola de Administração da Ufba